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Veículo: Diário da Manhã
Caderno : Economia
Data: 07/04/2008

Ferrovia Norte-Sul sem impactos ambientais

Dener Law
A.C. Volpone
Especial para economia

Em entrevista exclusiva ao DM, José Francisco das Neves, o Juquinha da VALEC, abre o coração e fala, sem meios-termos, do que ele considera a maior obra do governo Lula: a Ferrovia Norte-Sul, que muda o mapa geográfico-econômico do Brasil.

A Ferrovia Norte-Sul, um antigo sonho dos empresários e produtores brasileiros, começou em 1987/88, no mandato do presidente Sarney. A mídia, principalmente do Rio de Janeiro e São Paulo, apregoava que essa ferrovia “ia ligar nada a lugar nenhum”.

Juquinha recebeu a reportagem do DM em seu gabinete em Brasília e, de cara, ao saber do teor da entrevista, diz: “Imagina o sofrimento do presidente Sarney, considerado o pai dessa ferrovia.”

Juquinha lembra que no ano passado (2007), num encontro do senador Sarney com o presidente Lula, em Avianópolis, no lançamento da retomada das obras, o presidente fez o mea-culpa. Lula foi um dos grandes opositores à construção da Ferrovia Norte-Sul. Em público, ele considerou um de seus maiores erros políticos ser contra a ferrovia. Juquinha, que estava presente, conta que o encontro dos dois, ambos chorando, deixou todos os presentes emocionados.

Juquinha fala que “hoje, ela é considerada a principal obra em andamento no Brasil”. E complementa: “A melhor definição que eu ouvi da ferrovia, foi dada pelo seu pai, o presidente Sarney, de que ‘a Ferrovia Norte-Sul é a espinha dorsal da malha ferroviária brasileira. Porque ela vai unir as economias do Norte-Nordeste com as do Sul-Sudeste, passando pelo Centro-Oeste. É a mais importante de toda a malha ferroviária brasileira’.”

Lula promete que no seu governo vai viabilizá-la. A obra deverá ser inaugurada em maio de 2010, com o trecho chegando até Anápolis, que era o original traçado da ferrovia.

Por decisão do presidente Lula, a Ferrovia Norte-Sul não mais terá seu término em Anápolis. Vai prosseguir, e terminar em São Paulo, no município de Rubinéia, onde tem a ponte rodoferroviária, configurando, aí sim, o seu traçado de Norte a Sul do País.

Diário da Manhã – E como será isso?

Juquinha – Nós vamos ampliar em mais 680 quilômetros. A Medida Provisória está sendo encaminhada para negociações com o Congresso Nacional. Já está pronta, toda desenhada. Inclusive, não vai ficar só na Rodovia Norte-Sul, vamos fazer a Leste-Oeste também, partindo de Ilhéus, encontrando com a Norte-Sul, indo depois até Vilhena, em Rondônia. Serão mais 3.200 quilômetros de ferrovia. Tudo isso vai ser contemplado nesta Medida Provisória que já está pronta, aguardando sua emissão pela Casa Civil.

Em termos de ferrovias, a VALEC passou a ser a detentora de todas as concessões, inclusive do Trem de Alta Velocidade (TAV) Campinas–São Paulo–Rio de Janeiro–Belo Horizonte e ainda São Paulo–Curitiba. A VALEC tornou-se a empresa do governo que vai construir toda a malha ferroviária brasileira.

DM – Uma obra dessas deve ter uma grande influência social.

Juquinha – Em termos da Ferrovia Norte-Sul, em números, nós vamos ter neste ano, a partir de junho, 17.500 homens trabalhando em empregos diretos. Já temos algo em torno de 17 contratos devidamente assinados. A Ordem de Serviço já foi dada no trecho até Palmas, no Tocantins, de Araguaína a Palmas, e do lado de Goiás, de Anápolis até Uruaçu.

Ate o final deste mês (abril), início de maio, nós vamos dar a Ordem de Serviço do trecho de Uruaçu até Porto Nacional, que na verdade seria o pátio de Palmas. Aí, fecha toda a ferrovia e com isso nós estaremos com 1.156 quilômetros de ferrovia em obras. Isto quer dizer que vamos fazer um “rasgão no mapa geográfico do Brasil”

Hoje, já temos 4.500 homens trabalhando 24 horas por dia. Até o mês de junho/julho chegaremos a 17.500 nos dois Estados (Tocantins e Goiás).

DM – Você sempre foi uma figura pública diferenciada, pois sempre enfrentou os desafios de peito aberto, como foi o caso de sua presidência na Celg. Você sempre foi um empreendedor. Qual é o grande desafio da Ferrovia Norte-Sul?

Juquinha – Antes de mais nada, tenho a dizer que arranjei quatro pontes de safena e uma mamária graças às tamanhas dificuldades que eu tive de enfrentar na construção desta obra. Por exemplo, nós fizemos uma audiência pública na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, onde houve a participação do senador Sarney. Ele é o grande colaborador, uma das pessoas que me ajuda muito. Agora, todos elogiam dizendo que o projeto está muito bem montado. Todos sabem das pingas que nós tomamos, dos tombos que a gente vai levando, ninguém fala.

Lembro-me das palavras do senador Sarney: “Juquinha, eu queria dizer aqui das suas angústias e dificuldades”.

Em determinada época, ainda no governo Lula, a VALEC estava sendo privatizada. O senador José Sarney entrou na briga e não deixou que tal fato se tornasse realidade, alegando que a VALEC estava no caminho certo. A Ferrovia Norte-Sul hoje é uma realidade. Este espírito de empreendedor que eu tenho, que Deus me deu, de fazer acontecer as coisas no Brasil, me ajuda constantemente.

Hoje em dia, está muito difícil, principalmente em se tratando das questões ambientais. As dificuldades são imensas. De ordem financeira, então, nem se fala. Nós desenvolvemos um modelo inédito no mundo. No mundo inteiro as ferrovias são construídas com dinheiro público, depois são privatizadas.

Nós encontramos um consenso, que eu considero inédito, porque nós – governo – construímos um trecho com dinheiro público e vendemos a concessão para a iniciativa privada e com este dinheiro que nós arrecadamos, no caso do leilão que realizamos e que a Vale do Rio Doce foi vencedora, construímos outro trecho. Assim por diante. Neste sistema, no máximo, fica a metade com o governo e a outra metade com o setor privado. Isso é ótimo, pois antes tudo era feito com dinheiro público.

DM – Nós sabemos que as montadoras de carros e caminhões e fábricas de pneus sempre foram contra a construção de ferrovias.

Juquinha – O que você levantou é verdade. Em 1988, como presidente da CELG, fiz uma visita, junto com o ministro da Irrigação, ao Estado de Nebrasca (EUA), e lá nós podemos constatar que até as minipropriedades rurais, a que ficava mais distante de ramais ferroviários não chegava a cinco quilômetros.

A infra-estrutura ferroviária dos EUA é campeã no mundo. Noutros países também, a ferrovia é muito utilizada. Aqui no Brasil é que temos esta cultura da rodovia.

Isso me fez lembrar do Batista Custódio que sempre relata a entrevista de Juscelino Kubitschek para aquele caderno histórico do Estado de Goiás sobre a Ferrovia Norte-Sul, dizendo que o maior erro dele (JK) foi não ter investido em ferrovias. Ele (JK), em suas viagens pela Europa, viu que havia cometido um tremendo erro e que se ele viesse a governar novamente, a campanha dele seria calcada no binômio “ferrovia e agricultura”.

Agora, com o governo Lula, estamos retomando a cultura da ferrovia. Estamos retomando, e com muita força. Jamais foi visto um programa como este. Vamos ter mais de cinco mil quilômetros de ferrovias, de bitola larga, através dessa Medida Provisória que eu falei anteriormente. Com isso, vamos tirar as cargas pesadas das estradas e colocá-las em cima de trilhos.

A situação do Brasil chegou a tal nível de precariedade, que a turma da borracha ligada aos caminhões já não está mais contra os investimentos, pois seria suicídio empresarial e financeiro. Com isso, conseguimos retomar a cultura da ferrovia brasileira.

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